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Entrevista com Arrigo Sacchi - Extraido do site www.cidadedofutebol.com.br

Por Guilherme Costa
Publicado em 08 de dezembro de 2006

O italiano Arrigo Sacchi tem experiências absolutamente distintas com elencos formados por jogadores consagrados. Comandante do Milan vencedor no fim da década de 80, o treinador assumiu o cargo de diretor-técnico do Real Madrid em 2004. E com um grupo igualmente composto por atletas renomados, ficou apenas dois anos e saiu sem erguer uma taça sequer.



Os dois momentos são usados por Sacchi para definir a importância do ambiente num elenco de futebol. “É mais do que claro que precisamos buscar, cada vez mais, homens de qualidade antes de jogadores de qualidade. Uma coisa não se dissocia da outra e um elenco precisa dos dois pontos. Existem três fatores fundamentais para uma equipe vencedora: talento, ambiente e trabalho. Se um desses pilares é afetado, os outros dois sofrem demais”, contou o italiano, que pediu demissão do Real Madrid por não concordar com os privilégios dados a alguns atletas.



Sacchi esteve no Brasil para participar da terceira edição do Fórum Internacional de Futebol - Football Technology Convention (Footecon), no Rio de Janeiro. Durante o evento, conversou com a Cidade do Futebol sobre a diferença entre o Milan dos anos 80 e o Real Madrid atual. A partir disso, o italiano traçou uma base sobre a importância do treinador no futebol atual e as tendências para o futuro.



Na primeira passagem que teve no Milan, entre 1987 e 1991, Arrigo Sacchi conseguiu um aproveitamento incrível. Com um elenco formado por estrelas como os holandeses Rijkaard, Van Basten e Ruud Gullit e os italianos Baresi, Maldini e Donadoni, o treinador conquistou uma Supercopa da Itália (em 1988), um Campeonato Italiano (também em 1988), duas Ligas dos Campeões (em 1989 e em 1990), duas Supercopas Européias (1989 e 1990) e dois Mundiais interclubes (1989 e 1990).



O desempenho levou o treinador à seleção italiana. Sacchi era o comandante da equipe que perdeu a decisão da Copa do Mundo de 1994 para o Brasil e dirigiu o time nacional até 1996. Depois, voltou ao Milan e ainda passou por Atlético de Madri e Parma (como técnico e diretor-técnico) antes de ser contratado pelo Real Madrid.



No time espanhol, porém, Sacchi teve muitos problemas para trabalhar. Com um elenco formado por estrelas, o Real não conseguiu montar um grupo coeso. “Eu fui conversar com o presidente do Real Madrid sobre as regras que o elenco tem. Eu queria que todos os atletas fossem cobrados de uma forma igual. Se não for assim não é uma regra. Ele me perguntou se eu esperava ver o mesmo tratamento às estrelas e aos mais jovens. Eu disse que sim, mas ele não concordou. Então resolvi ir embora”, contou o italiano.



Cidade do Futebol – Quais foram os efeitos do título mundial para o futebol italiano? Houve alguma evolução em função disso?

Arrigo Sacchi – Eu acredito que sim. Estamos passando por uma mudança de mentalidade depois de termos vencido a Copa e isso é benéfico para a Itália. A nossa seleção sempre teve uma defesa forte, mas sempre funcionou como espelho – esperava o adversário para sair só nos contra-golpes. Nós estamos adquirindo uma postura um pouco mais ofensiva e ousada. Ora, nós somos os campeões do mundo! Não podemos atuar recuados contra qualquer adversário.



Cidade do Futebol – Mas por que a postura só foi alterada com a conquista?

Arrigo Sacchi – Não estou falando de um processo que se iniciou nessa Copa do Mundo. Quando eu fui treinador [até 1996], já trabalhávamos para tentar fazer os jogadores terem mais gosto pelo ataque. Eu nunca admiti que um país com um senso de estética tão grande se preocupasse apenas em ganhar e não em fazer bons espetáculos. O problema é que se trata de uma coisa de mentalidade. É preciso fazer um trabalho psicológico, físico, atlético, tático... como disse Michelangelo, a pintura se faz com a mente e não com as mãos. Assim é o futebol também. É preciso trabalhar a mente antes do corpo.



Cidade do Futebol – Quais foram os papéis da evolução científica e do trabalho multidisciplinar para possibilitar essa evolução?

Arrigo Sacchi – Fundamental. As ciências estão evoluindo assustadoramente e o futebol não pode fechar os olhos para isso. Com novos dados e estudos mais precisos é sempre mais fácil trabalhar e preparar a equipe de acordo com as coisas que você deseja.



Cidade do Futebol – O futebol brasileiro sofre do contrário – procura demais o ataque e se expõe na defesa...

Arrigo Sacchi – A Itália sempre teve medo da derrota. Então, sempre entrou em campo preocupada em não perder para depois tentar fazer um resultado positivo. O Brasil chegou aonde chegou com uma filosofia muito ofensiva e alegre. Mas o mundo globalizado deve diminuir essas diferenças culturais. Hoje em dia há jogadores brasileiros por todas as partes do mundo e as equipes se conhecem muito bem.



Cidade do Futebol – Existe um fator mais complicado para criar essa mudança na mentalidade de um jogador?

Arrigo Sacchi – O que dá mais trabalho é o momento em que ele não tem a bola. É fácil condicionar qualquer um a fazer jogadas do jeito que você quer, mas é extremamente difícil pedir para o atleta fechar espaços e acompanhar adversários exatamente como você gostaria que ele fizesse. Todo atleta gosta de trabalhar e fazer as coisas com posse de bola, que é quando eles aparecem mais. São como estrelas de cinema e buscam os holofotes.



Cidade do Futebol – Por falar em comportamento de estrelas de cinema, você deixou o Real Madrid nesta temporada em função do tratamento de alguns atletas do elenco. É mais difícil trabalhar com jogadores consagrados?

Arrigo Sacchi – Eu fui conversar com o presidente do Real Madrid sobre as regras que o elenco tem. Eu queria que todos os atletas fossem cobrados de uma forma igual. Se não for assim não é uma regra. Ele me perguntou se eu esperava ver o mesmo tratamento às estrelas e aos mais jovens. Eu disse que sim, mas ele não concordou. Então resolvi ir embora.



Cidade do Futebol – O problema para o treinador brasileiro Vanderlei Luxemburgo não ter dado certo foi muito mais o extra-campo do que o que aconteceu dentro das quatro linhas?

Arrigo Sacchi – Ele é um ótimo técnico e uma pessoa muito profissional. Mas infelizmente, o ambiente no Real Madrid não é bom para ninguém trabalhar. Todo treinador precisa ter o grupo unido para realizar um grande trabalho e ele não teve isso enquanto esteve por lá.





 


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