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O PROCESSO DE FORMAÇÃO DE JOVENS ATLETAS:UMA PEQUENA REFLEXÃO SOBRE A PRÁTICA

José Acco Junior - Prof. da Unisul/SC e Treinador da Cat. Sub-20 da equipe Unisul/Seguridade/Penalty - SC
Publicado em 12 de dezembro de 2008

Tenho visto, nestes 18 anos que trabalho com categorias inferiores, uma inversão de valores muito grande no que se refere ao seu verdadeiro significado. Em minha opinião, um dos principais objetivos quando se trabalha com categorias inferiores é o de preparar ou deixar os jovens atletas em condições de serem aproveitados na categoria adulta. Hoje se percebe que este trabalho é focado na busca por títulos, onde muitos profissionais que estão à frente destas equipes, estão mais preocupados em uma autopromoção do que com o processo de formação esportiva de seus jovens atletas.

Justifico esta minha afirmativa, com a seguinte análise: muitas vezes, a ênfase nos treinamentos é dada aos aspectos técnicos (desenvolvimento e aperfeiçoamento dos fundamentos), aos aspectos táticos (posicionamentos tanto de defesa quanto de ataque) e aos aspectos físicos (desenvolvimento das capacidades físicas inerentes à prática do futsal). Muitos fazem isto e digo mais, fazem bem feito. Vemos equipes bem condicionadas fisicamente, bem organizadas taticamente e dominando bem os fundamentos. E é comum escutarmos aquela frase comum no meio: “Pô, aquele professor é bom mesmo, olha o time dele como é organizado”. Podemos até imaginar que este professor esteja usando as categorias de base para buscar uma oportunidade de treinar uma equipe adulta, o que é compreensível e também, não deixa de ser uma forma de se adquirir experiência, fator essencial para o treinador da categoria adulta.

Porém, aí vem o ponto crucial desta discussão. Nas categorias inferiores, pouco se trabalha a “compreensão do jogo”, o desenvolvimento da capacidade cognitiva do jovem atleta, o processo de tomada de decisão. E estes são fatores importantíssimos para o atleta de futsal ter sucesso nos dias atuais. Jogador inteligente, seguro de suas ações, que sabe tomar decisões, que pensa e compreende o jogo, este jogador todo treinador sempre quer em seu time.

Mas para isto acontecer, devemos mudar o foco ou o referencial do trabalho nas categorias de base. Em primeiro lugar, o jovem atleta deve ser o centro deste trabalho, devemos ter bem claro aonde se quer chegar com ele, quais são suas limitações e suas possibilidades. Em segundo lugar, temos que mudar “o como fazer”, ou seja, quais as metodologias e estratégias de ensino que vamos usar nos treinamentos. Deixar de lado as sessões de treinamentos centradas na técnica e na repetição dos movimentos, onde o “professor” comanda as ações e diz o que o jovem atleta deve fazer (onde o atleta deve se posicionar, quando correr, como chutar, como passar, etc.), criando jovens atletas dependentes e com baixa capacidade cognitiva para tomar decisões para então, passar a utilizar estratégias ou situações que se assemelhem às que eles vão encontrar no jogo.

Segundo Griffin, Mitchel, Oslin (1997), o “ensino dos jogos para a compreensão” consiste na utilização de jogos com objetivos a serem compreendidos pelo jovem atleta, no qual os princípios do jogo regularão a aprendizagem e a inteligência tática proporcionará o desenvolvimento das técnicas e a criatividade dos mesmos, sendo os mais indicados para se desenvolver a inteligência do atleta. As adaptações das regras do jogo formal serão uma grande ferramenta para o professor/treinador. Elas servirão para facilitar ou simplificar o jogo. Para ter o controle do jogo e pensá-lo taticamente, favorecendo o processo de tomada de decisão. As adaptações das regras do jogo formal servirão também para dificultar o jogo, provocar um desequilíbrio no entendimento do jovem atleta, levando-o a uma reflexão e a uma nova forma de jogar. Desafiar o jovem atleta a ele ir além do que ele já sabe.

A intenção é de que o jovem atleta, por si mesmo, queira aprender ou inventar algo novo ou diferente, desde um movimento novo ou uma estratégia coletiva para superar as dificuldades que ele está vivenciando.

Mas, e quando surgirem as dúvidas por parte dos jovens atletas? O que se pode fazer? Caberá ao professor/treinador levar o jovem atleta a pensar para buscar a própria solução. Deverá questioná-lo, fazê-lo pensar e dizer o que está fazendo, estimulá-lo a procurar outras estratégias para o jogo. Porém, para isto acontecer, é fundamental um ambiente favorável para que estas situações aconteçam, um ambiente onde ele possa expressar suas dúvidas e dificuldades, mas principalmente suas idéias e soluções. Dessa maneira, os jovens atletas terão muito mais possibilidades de ter sucesso no jogo, pois eles compreenderão o jogo, suas regras, suas dificuldades, saberão identificar problemas, pensar soluções para resolver os problemas com autonomia.

Tenho pautado meu trabalho, nestes últimos anos, em cima desta nova perspectiva ou tendência para o trabalho com as categorias inferiores. Acredito cegamente que isto tem feito uma diferença muito grande, sobretudo no que se refere à compreensão do jogo por parte dos jovens atletas. É visível a capacidade que eles demonstram em resolver problemas, em achar possíveis soluções (mesmo aquelas diferentes das do treinador), de procurar se organizar para sair de situações impostas pelos adversários. Acredito também, que com esta prática é possível deixá-los aptos e em condições de suportar uma categoria adulta, categoria esta cada vez mais exigente, cada vez mais seletiva. Com o nível elevadíssimo dos nossos treinadores (veja na Seleção Brasileira e nas equipes da Liga Nacional) o nível de exigência para os jovens atletas aumenta a cada ano, portanto é preciso repensar o trabalho nas categorias inferiores para podermos ter cada vez mais, atletas inteligentes e que saibam compreender as diferentes possibilidades que o jogo apresenta, para continuarmos a ser esta potência no Futsal Mundial.

Quem sabe, se mudarmos nossa prática diária dentro da quadra não poderemos mudar também o jeito de jogar de nossos jovens atletas nas categorias inferiores. Quem sabe não teremos uma menor utilização do goleiro nas jogadas ofensivas e uma menor transferência de bolas tanto dos goleiros quanto dos fixos ou beques acostumados com chutões, uma maior movimentação para a criação e ocupação de espaços, diferentes alternativas para se evitar a oposição (marcação) e diferentes alternativas de se atacar o alvo (marcar o gol). Quem sabe...

Vamos pensar nisso?



Referência Bibliográfica:

 GRIFFIN, Linda L.; MITCHELL, Stephen A.; OSLIN, Judith L.. Teaching Sport Concepts and Skills: A Tactical Games Approach. Champaign: Human Kinetics, 1997. 237 p.





 


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