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Formação de Atletas

Prof. Ronieri Melo - ronieri11@hotmail.com
Publicado em 27 de agosto de 2009

Tratando-se de futebol, sem dúvida nenhuma, o Brasil é um celeiro incomparável. A minha preocupação, porém, é com a maneira “padrão” utilizada para a formação de nossos atletas.

Nas regiões Sul e Sudeste, as condições são bem melhores em termos de estrutura física. Aqui, no Nordeste, é completamente diferente, onde até o momento, a nível nacional, poucos clubes se destacam nos aspectos estruturais.

Não sendo diferente de muitos brasileiros, eu também “tive” a pretensão de ser um jogador de futebol, mas como nasci no interior do Ceará, tornou-se ainda mais difícil devido ás precárias condições para a formação de um atleta. Mesmo assim, com muita perseverança, consegui uma oportunidade para jogar num campeonato profissional (segunda divisão cearense). O meu “destaque” me proporcionou uma segunda oportunidade e, por um período, estive em um dos maiores centros do Brasil, o futebol paulista, mais precisamente em um clube no interior paulista.

Fiz esse comentário só para enfatizar que, infelizmente, tanto no local de pequena estrutura quanto no de grande estrutura, que conheci, a maneira como eles tratam os atletas que estão formando é um tanto quanto mecanizada. É preciso ter cuidado, pois como disse o Gerson (Canhotinha de Ouro) apud Araújo (1976, p. 102) “a responsabilidade do treinador é muito grande; ele responde por 70% na formação do jogador”. Na minha opinião, os formadores de atletas no futebol se preocupam muito com a performance, deixando de lado algumas vezes outros aspectos importantes para o desempenho e rendimento do jogador e esquecendo que ali, sob seus comandos, estão seres humanos e não máquinas, capazes de realizar uma função quantas vezes quiser sem nenhuma falha (VENLIOLES, 2001).



“O treinador possui uma tarefa importante no desenvolvimento de um jovem atleta, tanto na parte social, emocional, psicológica, física, técnica, tática, em fim, em todos os pontos abrangentes na formação de um jovem atleta” (CASTRO, 2006, 305).



Tanto na formação, quanto no alto rendimento, eu defendo que os defeitos ou erros devem ser apenas observados e posteriormente corrigidos, numa relação de amizade entre técnico e atleta, enquanto as qualidades ou acertos devem ser reforçados, mantendo-se um equilíbrio entre correções e elogios. “O treinador tem que dar um reforço positivo” (CASTRO, 2006, 80). Em muitos locais, ocorre o contrário, ressaltam-se os erros e apenas comentam-se os acertos (digo isso por experiência própria). “Não podemos concordar com o treinador que, quando o atleta executa uma ação tática ou técnica correta, este mesmo atleta seja ainda criticado” (CASTRO, 2006, 80).



“Baseado nos preceitos psicológicos, o treinador deverá agir diferenciadamente com cada atleta. Atletas extrovertidos ou tendentes à extroversão reagirão bem às críticas, desafios e obstáculos. Já os introvertidos ou ambivertidos, tendendo à introversão, deverão ser elogiados e enaltecidos para que consigam melhorar sua performance”. (DANTAS apud CASTRO, 2006, 74)



Os técnicos devem entender que o treinamento em si não garante que o atleta renda o seu máximo, pois existem outros fatores capazes de influenciar no momento da tomada de decisão. Todo atleta de futebol treina e sabe que, quando estiver em diagonal com a trave, deve realizar o chute cruzado, contudo, às vezes isso não ocorre mesmo sabendo a teoria.



Nesse caso, os treinadores costumam fazer a coisa errada, porque ao invés de avaliarem a situação, eles olham somente o erro, isto é, não atentam para os motivos que podem ter levado ao resultado negativo, como por exemplo, uma insegurança no momento do chute; ou, de repente, um movimento inesperado da bola, algum problema emocional ou de família. “Daí podemos encontrar alguns exemplos de abandono ou de conflitos dentro de uma equipe por parte de atletas com relação a treinadores” (CASTRO, 2006, 80).



“Observamos que na maioria dos treinadores pouco se trabalha o lado pedagógico ou educativo dos atletas e, simplesmente,” o tudo pela vitória “é o lema, pois no desporto de performance há uma cobrança exagerada sobre os treinadores, em se tratando de resultados positivos, desta maneira, muitas vezes vemos atletas serem chamados de” burro “ por não saberem sair de situações táticas delicadas”. (CASTRO, 2006, 65)



Para um atleta, o insucesso numa jogada lhe dá uma tremenda sensação de fracasso e mal-estar e qualquer manifestação de apoio, seja dos companheiros ou do técnico, transmitirá “força” e confiança para superar o momento infeliz. “O treinador tem que motivar sempre os seus atletas” (CASTRO, 2006, 84). Mas, se ao invés de um apoio ele escuta um berro do seu treinador ou companheiros, reprovando sua ação, isso irá comprometer sua auto-estima e, dependendo da sua estrutura psicológica, prejudicará ainda mais ações seguintes, podendo surgir aí um novo fator negativo: o medo de errar.



“O treinador deverá estar atento para a forma como se comunica com seus atletas, para não feri-los, muito menos inibi-los, provocando um distanciamento dos pupilos em relação a seu mestre, o que possivelmente afetará seu trabalho” (Monteiro apud CASTRO, 2006, 44)

“É preciso o treinador ter um poder de observação muito grande e saber o momento ideal para falar com tais atletas , principalmente após resultados negativos em que os jogadores estão nervosos e muitos deles com a auto-estima baixa”.(CASTRO, 2006, 75)



É óbvio que deve haver a cobrança. Mas, ao formar um atleta, o treinador deve ser amigo, não somente aquele que dá ordens e reclama, visto que, o atleta é um ser humano e não uma máquina tornando extremamente necessário, Para os treinadores de futebol, o conhecimento do ser humano (A. BELTRÃO, 1996).



“O treinador tem que ser um parceiro, isto é, um amigo do seu atleta no dia a dia. Não basta só ter a cobrança do trabalho. Há momentos em que os atletas, como mortais, passam por sérios problemas extra-quadra, extra-campo, etc. Neste momento entra o carisma do treinador para com o atleta. Muitos destes momentos alguns treinadores passaram como atleta e não basta você somente ser doutor e ser o dono da verdade nesta hora, o seu tempo de prática dentro do seu esporte específico tem que funcionar. O treinador por ter sido um ex-atleta, já passou por estes momentos e sabe muito bem como resolver os problemas”. (CASTRO, 2006, 31)



E, baseado nesse ponto de vista, gostaria de lembrar aos técnicos e formadores de atletas que o treino em si não garante a perfeição, apenas diminui a probabilidade de erros, até porque, como já foi dito, o aspecto emocional e alguns imprevistos podem interferir direta ou indiretamente numa jogada. O atleta deve sentir-se seguro e confiante. As críticas e reclamações excessivas devem ficar para terceiros, pois o ponto de apoio de um atleta são seus companheiros e seu técnico.



Seria bastante interessante que todos os profissionais que atuam em esportes coletivos refletissem sobre tal assunto melhorando sua forma de atuar e de preparar um atleta.





 


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