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As mazelas do método tecnicista

Alcides Scaglia - Cidade do Futebol
Publicado em 16 de julho de 2007

As mazelas do método tecnicista



Em colunas anteriores escrevi sobre formação. Enfatizei que o Brasil, em especial, não desenvolve um trabalho de formação, mas sim apostam todas as fichas na captação.



Ao se preocuparem apenas com a captação denunciam, mesmo que inconscientemente, uma concepção inatista em relação à aquisição e construção do conhecimento.



Desse modo, a metodologia de trabalho adotada hegemonicamente só poderia ser a tecnicista.



Quando qualifico uma metodologia de treinamento tecnicista, estou querendo dizer que sua preocupação principal se concentra no desenvolvimento e aperfeiçoamento das técnicas do jogo.



O tecnicista fragmenta o todo (jogo) em partes (fundamentos técnicos). Cada parte é trabalhada de forma descontextualizada, objetivando o automatismo de um movimento fechado.



Por exemplo, um tecnicista aplicaria um treino de passe dois a dois, cobrando de forma autoritária que o gesto técnico seja executado com maestria e em consonância com os padrões biomecânicos; desenvolveria um treino de chute a gol em fila; um treino de cruzamento sem defesa; um treino tático com o time adversário fazendo sombra, um coletivo sempre com o mesmo número de jogadores em cada time...



O que pode se notar nestes exemplos de treinamento é o fato de que se desconsidera a imprevisibilidade existente no jogo. Adestra-se um movimento de passe, enquanto que o mais importante seria a ampliação da capacidade de executar um passe certo em diferentes circunstâncias.



O jogo de futebol, como todos os jogos coletivos, exigem habilidades abertas, ou seja, habilidades que sejam flexíveis e ajustáveis aos contextos de suas respectivas realizações, pois o jogo tende ao caos e não à ordem servil.



Mas a metodologia tecnicista não contempla a desordem. Ela parte do pressuposto: ordem e progresso. Nunca passaria pela cabeça de um tecnicista ortodoxo de que o progresso advém do constante processo de organização engendrado pela desordem do sistema.



Assim, o futebol nunca poderia ser ensinado mesmo, pois jogo é jogo, treino é treino. Não existe relação direta entre o que se treina e as exigências do jogo. Não se considera a especificidade do jogo de futebol, apenas os seus movimentos padrões.



Contudo, não posso ser injusto em dizer que o método tecnicista é inócuo. Ele é muito eficiente para hipertrofiar as ações que os jogadores já possuem.



Analisemos este caso, um menino com certo potencial para se especializar no futebol é descoberto por um olheiro, ou mesmo “empresário”, na seqüência é encaminhado (condenado) ao confinamento em um alojamento, lá recebe uma carga excessiva de treinamentos físicos - hipertrofiando os músculos-, e em mesma dose treinamentos técnicos e táticos desenvolvidos por meio de um método tecnicista - causando “hipotonia” cerebral. Conseqüência: forma-se um menino tanque que até faz malabarismo com uma bola nos pés, porém deficiente no que tange às adaptações, logo, mais uma vítima fácil da cruel seleção natural.



Enquanto que o jogo de futebol exige um jogador inteligente que seja capaz de aproximar cada vez mais pensamento e ação, em situações diversificadas e relativamente imprevisíveis.



E afirmo que é possível formar este jogador, desde que se supere o obsoleto método tecnicista, e por meio de treinamentos consonantes às exigências do jogo, potencialize-se o aprendizado, permitindo que os jogadores na especialização possam desenvolver seus potenciais (e não enterrá-los para o juízo final).



O craque do futuro não será mais o malabarista, mas sim o que faz arte contextualizada, gerando um novo e contemporâneo futebol arte.



Alcides Scaglia

alcides@cidadedofutebol.com.br

 


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